sábado, 21 de fevereiro de 2015

Amor intergaláctico

O diálogo mais exato é feito de silêncio. Quantos sabem falar sem som?
Eles sabiam.
Os olhares quase não se encontravam. Mas se se esbarrassem por descuido e desejo, prendiam-se por segundos intermináveis.
Diziam sobre pensamentos e sonhos. Uma compreensão muda e insolitamente completa.
Ele não precisava explicar. Ela sabia.
Ela não ousava externar. Ele sentia.
Sintonia telepática.
Uma leve neblina do início da noite era o palco para as reflexões.
- Não, não fala nada não. Deixa o minuto eternizar-se assim, no escuro das vozes.
Deixa o destino agir, o futuro acontecer, os planetas se alinharem.
Ela viu. Ele notou.
Há beleza no caos.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

No cair da noite

No cair da noite

Bocejos e olhos pesados. Leio um capítulo do livro da vez, o sono vem e eu me entrego aos braços de Morfeu.
Deitada no aconchego que só a cama de casa tem, fecho os olhos, relaxo, estico o corpo e paro na minha posição inusitada de dormir.
E eis que ao invés de esvaziar a mente, devaneios diversos me assaltam e ficam planando sob meus olhos, adiando meu passeio ao subconsciente.
Surgem-me alegrias velhas e vozes esquecidas, sorrisos atuais e abraços do dia, conquistas futuras e meses, quiçá anos, que virão.
Encontro palavras que ficaram por dizer e construo frases desibinidas. É que no escuro todos somos corajosos.
Penso nos planos desfeitos, nos caminhos interrompidos, nos desejos mais profundos. Repasso meus conceitos de certo/errado para ver se não pesei a mão e errei mais do que deveria. Não, acho que não. Mas se bem que... A imagem já mudou e aí é hora de renovar meus projetos, planejar minha semana e pensar em um mundo que eu ainda não conheço.
Lamento, então, aquele dia em que bebi de mais e enxerguei de menos. A angústia se esvai em segundos e eu avalio os novos aprendizados. Decido saciar algumas curiosidades - que já não me lembro pela manhã.
Sozinha no breu, eu faço discursos mirabolantes, falo com toda a propriedade e ganho todas as discussões. Monto as cenas com cuidado. Sou a roteirista, a diretora e a atriz. Onisciente e onipresente.
É uma sequência acelerada, uma enxurrada de pensamentos. Recordações, besteiras, vontades, dores. O que está mais intimamente entranhado, os segredos da alma. Tudo vem à tona no silêncio exterior do quase-sono.
Até que se finda. Sussurro um acalanto, acalmo o espírito e permito que o nada me invada. O amanhã já vai chegar.
Às claras, ao abrir dos olhos de um sono sem sonhos, à primeira espreguiçada, o meu universo particular - impenetrável, caótico, intenso - se despede e deixa de ser meu.
O dia me devora.








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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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