sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Reflexo

Oi, espelho! Há tempos que não me encontrava com você de forma tão desnudada. Por trás de nariz e olhos. Lá no fundo, mais adentro.
Há diferenças homéricas, preciso te contar. 
Uma nov'alma na velha. 
No auge da sede, da rinite não-curada, das decisões dogmáticas, de terçóis incontáveis, do costume da rotina pragmática, da juventude antiga, descobri que seu reflexo endireitou-se por linhas tortuosas. 
Ou será que entortou-se por traços retos?
A prioridade, outrora inexistente, criou forma, nome, calor, olhinhos apertados e uma ansiedade desmedida. 
O rumo achou seu foco. 
Uma lâmpada sobre o palco em blecaute.
Meus solos ousados, imediatistas, inconsequentes terminaram com o fechar das cortinas de um espetáculo oco. 
O feixe de raios amarelos ilumina, hoje, um pas de deux de certezas, acréscimos, troca e sentimento.
Encaro-lhe sem o medo de antes, sem a pressa de ontem.
Com a insônia de sempre. Retratadas por olheiras profundas desses olhos árabes do meu avô.
Passem anos, experiências, auto-conhecimento e dores, espelho, a firmeza do seu olhar de raio-x será o ponto de equilíbrio.
Quando tudo for caos.
Quando tudo for luz.
Quando tudo for.
Quando.



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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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