terça-feira, 27 de agosto de 2013

Carta para uma moça


Você cresceu, menina. Sua alma nascida velha parece estar cansada.
Olhando-te de fora para dentro, vejo cicatrizes feitas de remendos mal costurados. Criados para disfarçar a sensibilidade tão crua. 
De dentro para fora, uns olhos profundos que gritam alto.
Perambulando madrugada adentro, um coração que desaprendeu a doer, bateu tão alto que as árvores silenciosas se viravam para te olhar - quando tudo o que você queria era passar despercebida, cair em um buraco e ali ficar, se esconder ainda mais dessa angústia devoradora. 
Por entre esquinas vazias e ébrios noturnos, você reconheceu uma senhora que sempre foi sua soberana.
A solidão. 
Eu vi que ela te trouxe um certo desespero, após tanto tempo sem encontrá-la. Seguido de perto pelo antigo realismo que sempre te consumiu. 
É, eu sei. Você não estava só. A lua cheia estava te olhando, guiando e protegendo, acendendo um céu feito de breu. 
Uma companhia reconfortante, imersa em um silêncio suave, cúmplice, absorvendo e exaurindo sua dor.
Ah, essa sua introspecção incompreendida! Sua apatia aparente denotando o que não é real. É só timidez, um apego por si, uma alegria solitária. Mas é estranheza para eles, os iguais, você deve saber. O seu não ser incomoda.   
O chão gelado das primeiras horas da manhã deram a clara sensação dos sentidos vitais. Os pássaros despertando e saudando o sol, o satélite brilhante escondendo-se devagarzinho, o vento batendo nas folhas daquela castanheira... 
Tudo fazia os sentidos se aguçarem, um corpo à flor da pele, à beira do abismo de si. 
Eu ouvi. Você conversou com os céus sobre a dádiva da vida. 
Refletiu sobre seus defeitos, suas falhas, seu auto-controle e sua auto-suficiência.
Sua simplicidade complexa. Sua estupidez por acreditar. Sua intuição canceriana que quase nunca falha. 
E então, de súbito, o se descobrir só. O desemparo da insônia, o peito sufocado. 
Talvez você não saiba, querida menina, mas você é frágil. Sua mágoa é grande, a onda não leva. O mar cura apenas a aflição do corpo. 
A da alma não.
Deixa sangrar, vai.
Transforme em luz o que é escuridão. 

Dois últimos conselhos: viva por você e sorria. 
Um sorriso de verdade é capaz de transformar vidas e sonhos. 
E de te fazer renascer. 
Foi o que eu li nas linhas dos seus traços tão seus: 
A sua cura está dentro de você.

Despeço-me na certeza de voltar um dia. Para te lembrar o essencial. O que, de fato, te faz estar viva.

Cuide-se.

Delicada e ternamente,
   
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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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