segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre cordas

- É só receio - ela concluiu depois daquele dia. 
Quando os nós são desatados, a corda fica livre para ser trançada de novo. É difícil alcançar a ponta livre, eu sei.
Ela é arredia, esvoaça à primeira brisa, camufla-se entre as roupas largadas pelo chão na noite em que tudo se perdeu. 
Às vezes, a ponta se transforma em fiapos incontáveis. Linhas extensíveis que esbarram nas nucas de moços desavisados.
São fracas. Arrebentam no dia seguinte deixando o rastro do perfume e várias páginas de saudade.
Há um dia em que a corda ressurge nova, refeita em retalhos de esperança.
Pronta para ser alcançada, enlaçada, esperando um nó de marinheiro, o peremptório.
Mas todo recomeço é feito de matéria frágil. Tudo muito tênue. 
O que ficou esquecido, o sentir, a apreensão pela reciprocidade. 
O peito murmura baixinho uma palavra: medo. 
De sufocar, de errar, de acertar, de se iludir, de se entregar.
É que a rotina da solidão traz insegurança quando um novo alguém encontra a ponta solta.
- Vai dar tudo certo - disseram olhos cúmplices. 
Uma canção veio concordar e dizer que a corda está sendo atada em dó maior. 
- É, eu sei - refletiu ela, já corajosa. - Eu li em um sorriso de luz. :) 
Deram as mãos de um jeito diferente, foram ver o mar no silêncio de um beijo e o receio foi-se embora com uma onda que passou.



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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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