quinta-feira, 21 de março de 2013

O avesso do contrário




Eu gosto do seu sorriso cáustico, das suas frases filosóficas, do seu olhar confuso. 
Das prosas codificadas, lembro-me apenas de palavras discordantes. 
Antíteses superficiais dentro de paradoxos densos. 
Eu adoro essa competição muda. Um mostra-esconde insaciável.
Alimenta o fogo. Constrói sentimentos. Acumula sinapses.
O mistério me é sempre muito envolvente.
Porque eu sou suspense. Exponho-me escondido. 
De maneira sonsa, quase discreta, até descobrir o que posso exibir - pouco do muito. 
E é melhor que não descubra, afinal. 
Ah! Deixe que o luar diga, que o sonho desenhe, que o encontro aconteça.
O não às vezes é sim. 
Assim, de frente, assim, entregue. Ao léu. 
Numa esquina qualquer. 
Ao som de sambas antigos, vozes sem sentido e olhares que gritam.
Enfim, a delicadeza das pequenas coisas que só a gente sabe. Em gestos e toques.
Para transportar e guardar: o perfume das flores, os pequenos murmúrios, folhas tristes do outono e o jeito do amor.
Sobre devaneios de quartas inteiras. 
Metade é pouco pra mim. Eu gosto do estrago. 
Do seu estrago.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre cordas

- É só receio - ela concluiu depois daquele dia. 
Quando os nós são desatados, a corda fica livre para ser trançada de novo. É difícil alcançar a ponta livre, eu sei.
Ela é arredia, esvoaça à primeira brisa, camufla-se entre as roupas largadas pelo chão na noite em que tudo se perdeu. 
Às vezes, a ponta se transforma em fiapos incontáveis. Linhas extensíveis que esbarram nas nucas de moços desavisados.
São fracas. Arrebentam no dia seguinte deixando o rastro do perfume e várias páginas de saudade.
Há um dia em que a corda ressurge nova, refeita em retalhos de esperança.
Pronta para ser alcançada, enlaçada, esperando um nó de marinheiro, o peremptório.
Mas todo recomeço é feito de matéria frágil. Tudo muito tênue. 
O que ficou esquecido, o sentir, a apreensão pela reciprocidade. 
O peito murmura baixinho uma palavra: medo. 
De sufocar, de errar, de acertar, de se iludir, de se entregar.
É que a rotina da solidão traz insegurança quando um novo alguém encontra a ponta solta.
- Vai dar tudo certo - disseram olhos cúmplices. 
Uma canção veio concordar e dizer que a corda está sendo atada em dó maior. 
- É, eu sei - refletiu ela, já corajosa. - Eu li em um sorriso de luz. :) 
Deram as mãos de um jeito diferente, foram ver o mar no silêncio de um beijo e o receio foi-se embora com uma onda que passou.



quinta-feira, 7 de março de 2013

A equilibrista


No âmago da intensidade de outrora, me vejo de longe, com um distanciamento insólito.
Envolvo-me com seus problemas, as dificuldade dela, os receios daquele moço. Dos outros. Tudo vindo lá de dentro, tudo gritado pelo músculo cardíaco.
Todos os meus, contudo, eu trato de não tratar de frente.
Abafo o sussurro do peito e só passo os olhos, meio que olhando pro lado, fingindo que não vejo.
Só porque eu não me esqueço que dói.
A verdade é que um dia a gente aprende.
Após um cataclisma sentimental, se constrói uma fortaleza de solidez variável em torno do que é frágil.
Para ruir, são necessárias doses de paciência, coerência, insistência, novidade e compreensão.
E é claro, tempo.
Trabalho árduo, eu sei. Sobretudo quando a fase de fortificação perdura tanto. Fica complicado transpassar o intransponível.
Admiro a coragem dos que tentam - eu não sei se conseguiria.
No fundo, eu gosto do conforto da distância.
Depois de enxergar as inconstâncias minuciosas, não há o susto do que nunca se viu.
É só ter memória.
No final, eu continuo no mesmo patamar: em algum lugar entre o céu e o inferno, vivendo e sobrevivendo.
Equilibrando-me como posso na corda bamba do viver - e na ponta dos pés.
Prefiro a estabilidade de ser do que as curvas do desconhecido.
Pronto.
Segue vida.
© Califasia - 2015. Todos os direitos reservados.
Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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