quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dias mascarados


Ela nunca gostou do tradicional, do comum, do padronizado. 
Nunca fez questão de pular carnaval, de cair na folia em dias marcados, eternizados pela cultura. Não. Ela não planejava antecipadamente os 5 dias de utopia. A praia de sempre, os amigos antigos e preciosos, um carinho e bate-papo com os seus sempre foram a melhor escolha.
Carnaval, para ela, é uma terça de jazz e blues, um sambão de roda transmissor de energia mágica - nada óbvia, uma mesa de bar enfeitada por sorrisos, amor e cumplicidade - de semana a semana, 365 dias por ano - pelos escolhidos cuidadosamente, pelos que acrescentam, transformam, somam e dividem.
Carnaval cotidiano, diversão insolúvel - dura meses pós-cinzas frias: coração, o grande folião de todos os dias. 
Todavia, a moça gostava da simbologia do carnaval: fantasiar-se, externar personagens que se escondem dentro da gente por moralismo. 
Aval para escancarar anseios submersos e segredos arriscados. Nem que seja pelo encontro de olhares conhecidos de outrora - ou ainda de agora? 
Que, ao se cruzarem, paralisam o tempo por um milésimo de segundo, soltam faíscas lascivas e contam sobre o que eles deixaram por dizer.
Fica no ar uma tensão perceptível. A vontade que nunca foi embora - do toque, do cheiro, do gosto. Pairam também o que nunca foi, o incerto e o indefinido.
Tudo ali, naquele disfarçado cruzamentos de olhos tão indisfarçáveis.
A moça, então, reflete sobre o pseudo-júbilo do carnaval. Feito de ilusões vulneráveis, como a lenda daqueles dois - tão opostos, mas absolutamente feitos do mesmo material - inquietude, luz, simplicidade e desejo.
Mas não tem nada não. 
O amanhã já vem apagar os rastros do que foi, trazendo as alegorias do carnaval mais bonito e intenso de todos: o da arte de viver, recomeçar, sonhar e ser feliz.
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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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