sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Reflexo

Oi, espelho! Há tempos que não me encontrava com você de forma tão desnudada. Por trás de nariz e olhos. Lá no fundo, mais adentro.
Há diferenças homéricas, preciso te contar. 
Uma nov'alma na velha. 
No auge da sede, da rinite não-curada, das decisões dogmáticas, de terçóis incontáveis, do costume da rotina pragmática, da juventude antiga, descobri que seu reflexo endireitou-se por linhas tortuosas. 
Ou será que entortou-se por traços retos?
A prioridade, outrora inexistente, criou forma, nome, calor, olhinhos apertados e uma ansiedade desmedida. 
O rumo achou seu foco. 
Uma lâmpada sobre o palco em blecaute.
Meus solos ousados, imediatistas, inconsequentes terminaram com o fechar das cortinas de um espetáculo oco. 
O feixe de raios amarelos ilumina, hoje, um pas de deux de certezas, acréscimos, troca e sentimento.
Encaro-lhe sem o medo de antes, sem a pressa de ontem.
Com a insônia de sempre. Retratadas por olheiras profundas desses olhos árabes do meu avô.
Passem anos, experiências, auto-conhecimento e dores, espelho, a firmeza do seu olhar de raio-x será o ponto de equilíbrio.
Quando tudo for caos.
Quando tudo for luz.
Quando tudo for.
Quando.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Carta para uma moça


Você cresceu, menina. Sua alma nascida velha parece estar cansada.
Olhando-te de fora para dentro, vejo cicatrizes feitas de remendos mal costurados. Criados para disfarçar a sensibilidade tão crua. 
De dentro para fora, uns olhos profundos que gritam alto.
Perambulando madrugada adentro, um coração que desaprendeu a doer, bateu tão alto que as árvores silenciosas se viravam para te olhar - quando tudo o que você queria era passar despercebida, cair em um buraco e ali ficar, se esconder ainda mais dessa angústia devoradora. 
Por entre esquinas vazias e ébrios noturnos, você reconheceu uma senhora que sempre foi sua soberana.
A solidão. 
Eu vi que ela te trouxe um certo desespero, após tanto tempo sem encontrá-la. Seguido de perto pelo antigo realismo que sempre te consumiu. 
É, eu sei. Você não estava só. A lua cheia estava te olhando, guiando e protegendo, acendendo um céu feito de breu. 
Uma companhia reconfortante, imersa em um silêncio suave, cúmplice, absorvendo e exaurindo sua dor.
Ah, essa sua introspecção incompreendida! Sua apatia aparente denotando o que não é real. É só timidez, um apego por si, uma alegria solitária. Mas é estranheza para eles, os iguais, você deve saber. O seu não ser incomoda.   
O chão gelado das primeiras horas da manhã deram a clara sensação dos sentidos vitais. Os pássaros despertando e saudando o sol, o satélite brilhante escondendo-se devagarzinho, o vento batendo nas folhas daquela castanheira... 
Tudo fazia os sentidos se aguçarem, um corpo à flor da pele, à beira do abismo de si. 
Eu ouvi. Você conversou com os céus sobre a dádiva da vida. 
Refletiu sobre seus defeitos, suas falhas, seu auto-controle e sua auto-suficiência.
Sua simplicidade complexa. Sua estupidez por acreditar. Sua intuição canceriana que quase nunca falha. 
E então, de súbito, o se descobrir só. O desemparo da insônia, o peito sufocado. 
Talvez você não saiba, querida menina, mas você é frágil. Sua mágoa é grande, a onda não leva. O mar cura apenas a aflição do corpo. 
A da alma não.
Deixa sangrar, vai.
Transforme em luz o que é escuridão. 

Dois últimos conselhos: viva por você e sorria. 
Um sorriso de verdade é capaz de transformar vidas e sonhos. 
E de te fazer renascer. 
Foi o que eu li nas linhas dos seus traços tão seus: 
A sua cura está dentro de você.

Despeço-me na certeza de voltar um dia. Para te lembrar o essencial. O que, de fato, te faz estar viva.

Cuide-se.

Delicada e ternamente,
   

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Densidade


A palavra é densa. Tem o peso do sentimento.
Coerência, verdade e cuidado: para quem diz o que se faz e age o que se prega.
Fiapos só chamam atenção quando presentes onde não deveriam.
Ficam ali pendurados, expostos, atraindo olhos pesados e pensamentos incertos.
A lua cheia vem ascender a inquietude intrínseca. O sono vem rápido - e se vai ainda mais fugaz.
A moça desperta da noite sem sonhos pensando no que é e no que apenas parece ser. Mas nem se ateia tanto. No fundo, sabe bem que deve frear a queda livre (será que dá?).
Ela escuta uma cantiga de acordar, toma um banho de alma - com cheiro de alecrim e textura de algodão - e vai ver o brilho do dia.
Entre mesquinharias e superficialidades, ela sempre se lembra do que realmente é valoroso: o carinho de quem se gosta, a reciprocidade do amor e o milagre da vida.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Respirar o amor



A sobrancelha esquerda se levanta inquisitiva questionando aquela velha dúvida.
O silêncio do quarto escuro cala a voz. 
Ela se concentra na sístole e diástole dos dois corações em sincronia. No calor da pele, no carinho na nuca, no suspiro velado.
Os pensamentos voam soltos, dissimulados, brincando de sonhar.
A alma tem sede de vinho, de prazer, de vida. 
Um anseio tímido de ser única grita baixinho no âmago do estar. 
A mesma profundidade, a soberana intensidade. 
A interferência dos astros guiando o caminho de luz.
-Seja menos detalhista, diz o reflexo dos olhos negros no espelho.
O sorriso ri seu riso aberto, por duas etapas de felicidade. 
A inquietude do peito já se transformou em paz. Para que hesitar?
É só se deixar sentir - livre. Aprender a nova solidão de ser só dois. 
Viver, crescer, aprender. 
Respirar o amor.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sejamos




Entre devaneios silenciosos e palavras compartilhadas, me vem a dúvida do ser ou não ser. Das possibilidades, cessões e congruências. 
A busca pelo tom certo. Voz, olhar e corpo.
Eu tenho apreço pelas entrelinhas. Deve ser a mania da clareza. Que se mostra quase ingênua de tanta luz.
Há de haver espaço para a escuridão também. Um pouquinho de breu. O apego pelo obscuro.
Um suspiro substituto da incompreensão. Nada de som, nem de expressão.
O sorriso disfarçando o pensamento.
Quem sabe o pouco se torne muito assim: pelo avesso. 
As novas batidas do coração querem anunciar o sentimento. Gritar pro mundo, fugir do peito acelerado. Não sabia que é preciso calma. 
Mas acabou por descobrir. 
Recitou um cordel, riu em segredo, tomou um outro gole e viu que está na hora de ser feliz. 
De viver a felicidade.
Sem questionar, sem duvidar, sem transformar.
Optou pelo ser. Sempre ser. 
Sermos. Para que sejamos.
Mais.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Janelas da alma


Os olhos eram de um castanho tão profundo que refletiam o que não cabia nas palavras. 
Às vezes tinham um brilho avermelhado, confessando sutilmente desejos e pecados febris.
N'outras, eram cinzas de um passado que se foi. Grandes, vazios, paralisados naquele tempo de luz. 
Tinham momentos de calmaria. Um marrom terno, doce, quente, confortável. Que aconchega e abriga olhares de terremoto.
Eles também sabiam sorrir. Diminuíam centímetros e se apertavam livres, em comunhão com os lábios.
Ou sorriam sozinhos. Em silêncio. Observando. Brincando de ser feliz. 
Eram os olhos de quem enxerga além do que se vê. 
Inteligentes, velozes, hábeis, antigos. 
Olhos feitos de mistério, magnéticos. Que prendem, sugam, despem, exploram e descobrem: corpo, mente, outros olhos, alma, coração.
Quando estão negros, como poços obscuros e perigosos, é bom deixá-los a sós. Longe, fitando um horizonte sem fim. Até que as lágrimas lavem o que não foi.
Todavia, quando estiverem como milhões de estrelas - faiscando, iluminando, transformando - olhos de paixão, preste toda a atenção. 
Esses são os olhos de quem recomeçou e está esticando a mão dizendo assim: 
-Me leva com você.


quinta-feira, 21 de março de 2013

O avesso do contrário




Eu gosto do seu sorriso cáustico, das suas frases filosóficas, do seu olhar confuso. 
Das prosas codificadas, lembro-me apenas de palavras discordantes. 
Antíteses superficiais dentro de paradoxos densos. 
Eu adoro essa competição muda. Um mostra-esconde insaciável.
Alimenta o fogo. Constrói sentimentos. Acumula sinapses.
O mistério me é sempre muito envolvente.
Porque eu sou suspense. Exponho-me escondido. 
De maneira sonsa, quase discreta, até descobrir o que posso exibir - pouco do muito. 
E é melhor que não descubra, afinal. 
Ah! Deixe que o luar diga, que o sonho desenhe, que o encontro aconteça.
O não às vezes é sim. 
Assim, de frente, assim, entregue. Ao léu. 
Numa esquina qualquer. 
Ao som de sambas antigos, vozes sem sentido e olhares que gritam.
Enfim, a delicadeza das pequenas coisas que só a gente sabe. Em gestos e toques.
Para transportar e guardar: o perfume das flores, os pequenos murmúrios, folhas tristes do outono e o jeito do amor.
Sobre devaneios de quartas inteiras. 
Metade é pouco pra mim. Eu gosto do estrago. 
Do seu estrago.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sobre cordas

- É só receio - ela concluiu depois daquele dia. 
Quando os nós são desatados, a corda fica livre para ser trançada de novo. É difícil alcançar a ponta livre, eu sei.
Ela é arredia, esvoaça à primeira brisa, camufla-se entre as roupas largadas pelo chão na noite em que tudo se perdeu. 
Às vezes, a ponta se transforma em fiapos incontáveis. Linhas extensíveis que esbarram nas nucas de moços desavisados.
São fracas. Arrebentam no dia seguinte deixando o rastro do perfume e várias páginas de saudade.
Há um dia em que a corda ressurge nova, refeita em retalhos de esperança.
Pronta para ser alcançada, enlaçada, esperando um nó de marinheiro, o peremptório.
Mas todo recomeço é feito de matéria frágil. Tudo muito tênue. 
O que ficou esquecido, o sentir, a apreensão pela reciprocidade. 
O peito murmura baixinho uma palavra: medo. 
De sufocar, de errar, de acertar, de se iludir, de se entregar.
É que a rotina da solidão traz insegurança quando um novo alguém encontra a ponta solta.
- Vai dar tudo certo - disseram olhos cúmplices. 
Uma canção veio concordar e dizer que a corda está sendo atada em dó maior. 
- É, eu sei - refletiu ela, já corajosa. - Eu li em um sorriso de luz. :) 
Deram as mãos de um jeito diferente, foram ver o mar no silêncio de um beijo e o receio foi-se embora com uma onda que passou.



quinta-feira, 7 de março de 2013

A equilibrista


No âmago da intensidade de outrora, me vejo de longe, com um distanciamento insólito.
Envolvo-me com seus problemas, as dificuldade dela, os receios daquele moço. Dos outros. Tudo vindo lá de dentro, tudo gritado pelo músculo cardíaco.
Todos os meus, contudo, eu trato de não tratar de frente.
Abafo o sussurro do peito e só passo os olhos, meio que olhando pro lado, fingindo que não vejo.
Só porque eu não me esqueço que dói.
A verdade é que um dia a gente aprende.
Após um cataclisma sentimental, se constrói uma fortaleza de solidez variável em torno do que é frágil.
Para ruir, são necessárias doses de paciência, coerência, insistência, novidade e compreensão.
E é claro, tempo.
Trabalho árduo, eu sei. Sobretudo quando a fase de fortificação perdura tanto. Fica complicado transpassar o intransponível.
Admiro a coragem dos que tentam - eu não sei se conseguiria.
No fundo, eu gosto do conforto da distância.
Depois de enxergar as inconstâncias minuciosas, não há o susto do que nunca se viu.
É só ter memória.
No final, eu continuo no mesmo patamar: em algum lugar entre o céu e o inferno, vivendo e sobrevivendo.
Equilibrando-me como posso na corda bamba do viver - e na ponta dos pés.
Prefiro a estabilidade de ser do que as curvas do desconhecido.
Pronto.
Segue vida.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dias mascarados


Ela nunca gostou do tradicional, do comum, do padronizado. 
Nunca fez questão de pular carnaval, de cair na folia em dias marcados, eternizados pela cultura. Não. Ela não planejava antecipadamente os 5 dias de utopia. A praia de sempre, os amigos antigos e preciosos, um carinho e bate-papo com os seus sempre foram a melhor escolha.
Carnaval, para ela, é uma terça de jazz e blues, um sambão de roda transmissor de energia mágica - nada óbvia, uma mesa de bar enfeitada por sorrisos, amor e cumplicidade - de semana a semana, 365 dias por ano - pelos escolhidos cuidadosamente, pelos que acrescentam, transformam, somam e dividem.
Carnaval cotidiano, diversão insolúvel - dura meses pós-cinzas frias: coração, o grande folião de todos os dias. 
Todavia, a moça gostava da simbologia do carnaval: fantasiar-se, externar personagens que se escondem dentro da gente por moralismo. 
Aval para escancarar anseios submersos e segredos arriscados. Nem que seja pelo encontro de olhares conhecidos de outrora - ou ainda de agora? 
Que, ao se cruzarem, paralisam o tempo por um milésimo de segundo, soltam faíscas lascivas e contam sobre o que eles deixaram por dizer.
Fica no ar uma tensão perceptível. A vontade que nunca foi embora - do toque, do cheiro, do gosto. Pairam também o que nunca foi, o incerto e o indefinido.
Tudo ali, naquele disfarçado cruzamentos de olhos tão indisfarçáveis.
A moça, então, reflete sobre o pseudo-júbilo do carnaval. Feito de ilusões vulneráveis, como a lenda daqueles dois - tão opostos, mas absolutamente feitos do mesmo material - inquietude, luz, simplicidade e desejo.
Mas não tem nada não. 
O amanhã já vem apagar os rastros do que foi, trazendo as alegorias do carnaval mais bonito e intenso de todos: o da arte de viver, recomeçar, sonhar e ser feliz.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Sede


Eu gosto do jeito que aqueles olhos brilham. Tenho certeza que é luz no escuro aqui do quarto. 
Mensagens veladas flutuam quando eles encontram os meus.
Eu leio solidão, desejo e calmaria.
Um jazz que acalanta alma inquieta.
Promessa de sol de verão. Aquele de fim de tarde que aquece sem queimar. 
A percepção grita por cada poro. 
Mas o silêncio aqui de dentro grita mais alto calando o que não pode ser. 
Há sonhos que sonhos são. E só.
Como reaprender a não andar com os pés no chão?
Eu queria flutuar por sentir. E me aprofundar nos poços profundos do que aqueles olhos dizem. 
Saciar minha sede.
Milhões de vezes.
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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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