quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Meu sol


Era uma alma tecida por estrelas. Luz antiga, irradiando feixes escondidos. 
Carapaça de caranguejo. Sensibilidade mal disfarçada. 
Foi naquela curva: despedida por lenços brancos de partida. 
Ouça esse silêncio. 
Olhe para o lado. 
Recomece, reconstrua, afaste essas pinças de defesa. 
Mostre o peito nu, o rosto amassado do despertar, o riso profundo que vem lá de dentro. 
Deixe os olhos denunciarem o inegável.
Relembre aquela terna tarde de sol, umas noites suspensas, uma fisgada em um músculo desconhecido, um cheiro costumeiro, um gosto bem do jeito que se gosta. 
Redescubra uma morada no cangote, um beijo sem querer, um repouso para um olhar cansado.
Há os iguais, todos com o mesmo tom. Os que não sabem, não entendem, não podem, não são. Todos falando a mesma língua.
E há você. Com suas verdades cruas, seu sorriso lindo feito de ímã, sua bagunça se aconchegando na minha, um pedaço de menino que mora em você - e encanta, envolve, embala.
Brilhe assim, mais perto, mais forte. 
E venha! Assim, tão dono de si, assim tão vulnerável, venha assim, me enxergando transparente, venha, sob o luar de câncer, iluminar minha solidão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ser

Silencio. A voz, o peito, o desejo. 
Observo-me por dentro de fora. Deixo o tempo ruir o que era certeza. 
Absorvo a fluidez do vento quando há sussurros pelo cabelo cortado. Incontáveis vezes.
Vejo a imensidão do céu, a vida me escorrer pelos dedos e a impotência debruçada no meu pescoço. 
Vontade de romper com o mundo, queimar meus navios, sair do compasso, desbotar as minhas cores, reimaginar miragens.
Descobrir o bem querer, o que querer, o que fazer.
E ser. Só, somente só. Só ser.

sábado, 22 de setembro de 2012

O segredo



É bastante tênue a linha entre o equilíbrio e a desordem, a luz e o breu, a alegria e a tormenta.
Um dia, tudo parece transcender o caos. E o sol brilha mais, e as flores nos sorriem seus risos perfumados.
Mas, repentinamente, uma fagulha de negatividade invade a calmaria. E tudo desanda, estanca, desbanca.
Assim, deumavezsó.
Hora crítica de inspirar e expirar e matutar e esperar. Sem se perder pelo caminho.
Que tudo é um ciclo, que tudo que vai, se tiver que voltar, volta, que o mundo não faz o movimento de rotação e translação só pra termos dias e noites e quatro estações.
Não adianta ter pressa, nem se indignar, muito menos ser precipitado.
Atente pro que está ao seu alcance, olhe para os lados, fale o que tem que ser dito, siga sua intuição.
Felicidade pode ser qualquer coisa - um dia de sol, um abraço aconchegante, um sorriso inesperado, um desejo saciado.
É o conceito mais simples: a verdadeira beleza mora na simplicidade.

sábado, 1 de setembro de 2012

A voz do vento

Hoje eu acordei com o inverno soprando uma brisa suave e renovadora. O vento me sussurrou conselhos, segredos e bons presságios. 
Disse que eu devo confiar na minha intuição - e que, aliás, todos os cancerianos com ascendente em escorpião devem. Ensinou-me a não desacreditar nas pessoas, na verdade e no amor - apesar da recente decepção me desencorajar. Mandou-me sorrir e rir - muito, não ser tão rabugenta, debochar de mim mesma, acreditar que posso ir além, sempre. Aconselhou-me a seguir a luz das estrelas sem olhar para baixo, de mãos dadas com os meus. A ser mais leve, a não sufocar, a não me esquecer dos valores cultivados, a não revidar. Afinal, a brisa me disse, o mal fica pra quem o faz, o destino se encarrega. 
Ela me segredou que a maré está, enfim, virando. Delicada e cuidadosamente para não haver sustos.
Cheia de esperança, todavia com receio das quedas, eu a questionei se vou saber lidar com o que o futuro trará, se vou enxergar as boas oportunidades. 
O vento riu-se todo da minha insegurança e assim falou: não se preocupe. A roda viva vai levar embora toda dor e você vai se entregar ao mundo com toda intensidade que lhe é peculiar, sem se lembrar das cicatrizes que ficaram. Porque é só assim que vale a pena viver. Com riscos, com a cara e a coragem, com a cabeça erguida, com muita vontade. 
E foi-se embora.
O que me ficou do encontro inusitado foi um brilho novo nos olhos. A convicção de não mais perder meu tempo com o que não me acrescenta nada. 
E ser nova, novíssima, cada vez melhor, aproveitando a nova idade que veio junto com a fria brisa invernal.

sábado, 18 de agosto de 2012

Caos

Sabe quando o céu está na iminência de uma tempestade? 
E o tempo prende a respiração, o vento para de soprar, os raios de sol não conseguem perpassar as nuvens, os segundos passam em câmera lenta? 
Estado de espírito, alma de cor cinza ou só um pouco de latência.
A indefinição: mãe dos três. 
Ah, essas incertezas. Eu, com essa mania de racionalidade, me perco nas curvas dessas dúvidas. 
E fico assim - quie
ta, hesitante, atônita. Esperando, observando, fazendo notas.
Mas que não haja ilusões.
A qualquer instante, o temporal pode desabar.
Uma explosão súbita e ruidosa capaz de afogar seus medos, lavar as sujeiras do caminho e te mostrar a direção.
Uma estrada clara, evidente e com promessas de paz.
E você vai decidir o quê?
Abolirá a covardia, seguirá a luz, quererá aprender e ensinar?
Ou apenas perecerá no caos?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Por um triz

Ando cansada de novidade. Preguiça de me aventurar, de expandir os horizontes. 
Eu quero é sentir de novo um sentimento antigo, matar saudade acumulada, me doar de corpo, alma e coração. 
Minha introspecção acentuada me deixa assim: minimalista. 
Quero a simplicidade de deitar no colo, ouvir boa música, tomar um vinho barato, jogar conversa fora e fazer confissões. Quero leveza e suavidade!
Sentir o mesmo cheiro. Prender pelo olhar.
O que sinto é o revés do racional: o desejo mais humano - absolutamente visceral.
Um bem querer inusitado, quase se tornando necessário.
Agora diz, diz se é perigoso a gente ser feliz.
Que é, é. 
Mas o que nessa vida mortal que tem graça sem risco?

terça-feira, 10 de julho de 2012

Para o tempo

Tempo, eu te peço: não passes tão depressa. 
Preciso de tempo, tempo. Minutos a mais de sono, muito mais horas com os meus, menos correria, passos mais lentos - pra enxergar a paisagem e reparar em todas as suas cores, pra escutar os pequenos murmúrios. 
Quero menos descuido, mais atenção. Saborear segundos, imortalizar noites, ressuscitar olhares e sorrisos.
Mas tu tens pressa, eu sei. A rotação do planeta azul não pára - e parece girar mais rápido a cada dia. 
Tudo bem, eu compreendo. 
Só não me deixes atropelar planos, sufocar de ansiedade, tropeçar no que ficou a fazer por tua falta. 
Vou voar contigo, tempo. 
Leva-me pela mão, me ensina a pairar no vento, a abusar e lambuzar-me de ti com mais propriedade.
Escorras entre os dedos, sim, mas olha-me nos olhos enquanto escoas. 
Vem, vem que está na hora. Cada dia a mais é um dia a menos pro encontro acontecer.
Está na hora de viver.

domingo, 8 de julho de 2012

Mente, espinha e coração

Como encontrar o seu ponto de equilíbrio para se ter mente, alma e coração em sintonia?
Eu sei que há várias estradas para um mesmo destino e que o método para descobri-las é o mesmo: tentativa e erro. 
Sei também que é preciso se jogar de cabeça no abismo, assim, às cegas. E se deixar sentir. Tudo o que vier. 
Com a experiência, você aprende a dosar os sentimentos. Menos decepção, menos espera, menos dor, bem menos. Ora, novidades envelhecem. 
Depois das consequências dos tombos, rasteiras e buracos pelo caminho, percebemos-nos em plena calmaria. 
O que antes estava em carne viva, agora é só uma pálida cicatriz. Já se esbravejou, sangrou e amaldiçoou. Uma hora você deixa de se importar e pronto. 
De súbito, uma paz te invade, uma serenidade te envolve e você dá de cara com o equilíbrio ali, pairando no ar. 
O difícil é se manter na corda bamba sem cambalear. Andando em linha reta no tênue limiar dos extremos. Pode bater uma brisa forte e te fazer cair. 
Um vislumbre inesperado, uma fofoca indesejada, as tantas sensações sinestésicas - uma música que me traz o cheiro da sua pele, a textura das suas mãos, o calor do seu abraço. O toque do gosto, o som do perfume, a mistura de todos os sentidos.
Pra quem é exagerado, extremista, intenso - oi!, a paz que te faz flutuar se perde e te faz derrapar em lembranças e desejos. 
Calma, respire fundo. Deixe o olhar vaguear solitário em busca do ponto onde se encontrou o equilíbrio. Ele vai achá-lo. 
É que quando encontramos o caminho certo, até podemos nos esquecer de uma curva e nos perder. Mas sempre achamos a harmonia de novo. Acredite.
O mapa está dentro da gente. É só olhar com atenção. 
Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
Pra ser feliz, pra ser livre.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Descubra-me

Sou aquela consternação feroz
que é a alegria comum do querer
Por vezes sou púnico, sou o sofrer
Sou também aquela paixão veloz

Que de lua em lua vem tão atroz
Construindo sonhos pra dissolver
E em teu peito submerso te perder
Na distância daqueles sóis em foz

Saudade e júbilo de ponto a ponto
Nascem da minha etérea e límpida alma
Sou emoção, desejo, dor

No coração nasci e cresci por conto
Sou como o nobre sentimento em palma
E, a propósito, chamam-me de amor.




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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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