ANA BEATRIZ MIRANDA

Como comecei a escrever? O início foi sem querer. Por necessidade de desabafo, as letras foram se juntando, as palavras tomando forma e quando eu dei por mim, tinha criado uma pequenina crônica. Meio prosa, meio poesia. Era só válvula de escape, transcrição de angústias e anseios. Tornou-se uma paixão. "LEIA MAIS"



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domingo, 8 de março de 2015

À última luz

Ele perguntou qual era seu horário favorito.
- O crepúsculo, ela respondeu sem hesitar, com um sorriso de pôr do sol.
"Ora, com o até logo do astro-rei, nada é definitivo. As cores mudam ao piscar dos olhos. Dependendo do seu estado de espírito, você admira mais um tom - que se despede, de súbito, como um sonho que não pode ser seu e que fica ali, naquele olhar efêmero, pairando, como uma lembrança colorida e misteriosa."
Ela gosta do crepúsculo não só pela bela paleta de cores.
Mas, sobretudo, pela analogia com a vida. Que muda de cor e brilho lépida e frequentemente, que se repete, passa e se esvai, a cada fim de tarde.
A dualidade do claro e do escuro, reflexo do que somos todos - luz e breu. -Crepúsculo é o inspirar do recomeço. É o fôlego do amanhã, ela concluiu.

E, de repente, ao olhar para o céu, a primeira estrela, d'alva, já estava lá, majestosa, iluminando os olhos dela.
Boa noite, noite!


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Amor intergaláctico

O diálogo mais exato é feito de silêncio. Quantos sabem falar sem som?
Eles sabiam.
Os olhares quase não se encontravam. Mas se se esbarrassem por descuido e desejo, prendiam-se por segundos intermináveis.
Diziam sobre pensamentos e sonhos. Uma compreensão muda e insolitamente completa.
Ele não precisava explicar. Ela sabia.
Ela não ousava externar. Ele sentia.
Sintonia telepática.
Uma leve neblina do início da noite era o palco para as reflexões.
- Não, não fala nada não. Deixa o minuto eternizar-se assim, no escuro das vozes.
Deixa o destino agir, o futuro acontecer, os planetas se alinharem.
Ela viu. Ele notou.
Há beleza no caos.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

No cair da noite

No cair da noite

Bocejos e olhos pesados. Leio um capítulo do livro da vez, o sono vem e eu me entrego aos braços de Morfeu.
Deitada no aconchego que só a cama de casa tem, fecho os olhos, relaxo, estico o corpo e paro na minha posição inusitada de dormir.
E eis que ao invés de esvaziar a mente, devaneios diversos me assaltam e ficam planando sob meus olhos, adiando meu passeio ao subconsciente.
Surgem-me alegrias velhas e vozes esquecidas, sorrisos atuais e abraços do dia, conquistas futuras e meses, quiçá anos, que virão.
Encontro palavras que ficaram por dizer e construo frases desibinidas. É que no escuro todos somos corajosos.
Penso nos planos desfeitos, nos caminhos interrompidos, nos desejos mais profundos. Repasso meus conceitos de certo/errado para ver se não pesei a mão e errei mais do que deveria. Não, acho que não. Mas se bem que... A imagem já mudou e aí é hora de renovar meus projetos, planejar minha semana e pensar em um mundo que eu ainda não conheço.
Lamento, então, aquele dia em que bebi de mais e enxerguei de menos. A angústia se esvai em segundos e eu avalio os novos aprendizados. Decido saciar algumas curiosidades - que já não me lembro pela manhã.
Sozinha no breu, eu faço discursos mirabolantes, falo com toda a propriedade e ganho todas as discussões. Monto as cenas com cuidado. Sou a roteirista, a diretora e a atriz. Onisciente e onipresente.
É uma sequência acelerada, uma enxurrada de pensamentos. Recordações, besteiras, vontades, dores. O que está mais intimamente entranhado, os segredos da alma. Tudo vem à tona no silêncio exterior do quase-sono.
Até que se finda. Sussurro um acalanto, acalmo o espírito e permito que o nada me invada. O amanhã já vai chegar.
Às claras, ao abrir dos olhos de um sono sem sonhos, à primeira espreguiçada, o meu universo particular - impenetrável, caótico, intenso - se despede e deixa de ser meu.
O dia me devora.








sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Reflexo

Oi, espelho! Há tempos que não me encontrava com você de forma tão desnudada. Por trás de nariz e olhos. Lá no fundo, mais adentro.
Há diferenças homéricas, preciso te contar. 
Uma nov'alma na velha. 
No auge da sede, da rinite não-curada, das decisões dogmáticas, de terçóis incontáveis, do costume da rotina pragmática, da juventude antiga, descobri que seu reflexo endireitou-se por linhas tortuosas. 
Ou será que entortou-se por traços retos?
A prioridade, outrora inexistente, criou forma, nome, calor, olhinhos apertados e uma ansiedade desmedida. 
O rumo achou seu foco. 
Uma lâmpada sobre o palco em blecaute.
Meus solos ousados, imediatistas, inconsequentes terminaram com o fechar das cortinas de um espetáculo oco. 
O feixe de raios amarelos ilumina, hoje, um pas de deux de certezas, acréscimos, troca e sentimento.
Encaro-lhe sem o medo de antes, sem a pressa de ontem.
Com a insônia de sempre. Retratadas por olheiras profundas desses olhos árabes do meu avô.
Passem anos, experiências, auto-conhecimento e dores, espelho, a firmeza do seu olhar de raio-x será o ponto de equilíbrio.
Quando tudo for caos.
Quando tudo for luz.
Quando tudo for.
Quando.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Carta para uma moça


Você cresceu, menina. Sua alma nascida velha parece estar cansada.
Olhando-te de fora para dentro, vejo cicatrizes feitas de remendos mal costurados. Criados para disfarçar a sensibilidade tão crua. 
De dentro para fora, uns olhos profundos que gritam alto.
Perambulando madrugada adentro, um coração que desaprendeu a doer, bateu tão alto que as árvores silenciosas se viravam para te olhar - quando tudo o que você queria era passar despercebida, cair em um buraco e ali ficar, se esconder ainda mais dessa angústia devoradora. 
Por entre esquinas vazias e ébrios noturnos, você reconheceu uma senhora que sempre foi sua soberana.
A solidão. 
Eu vi que ela te trouxe um certo desespero, após tanto tempo sem encontrá-la. Seguido de perto pelo antigo realismo que sempre te consumiu. 
É, eu sei. Você não estava só. A lua cheia estava te olhando, guiando e protegendo, acendendo um céu feito de breu. 
Uma companhia reconfortante, imersa em um silêncio suave, cúmplice, absorvendo e exaurindo sua dor.
Ah, essa sua introspecção incompreendida! Sua apatia aparente denotando o que não é real. É só timidez, um apego por si, uma alegria solitária. Mas é estranheza para eles, os iguais, você deve saber. O seu não ser incomoda.   
O chão gelado das primeiras horas da manhã deram a clara sensação dos sentidos vitais. Os pássaros despertando e saudando o sol, o satélite brilhante escondendo-se devagarzinho, o vento batendo nas folhas daquela castanheira... 
Tudo fazia os sentidos se aguçarem, um corpo à flor da pele, à beira do abismo de si. 
Eu ouvi. Você conversou com os céus sobre a dádiva da vida. 
Refletiu sobre seus defeitos, suas falhas, seu auto-controle e sua auto-suficiência.
Sua simplicidade complexa. Sua estupidez por acreditar. Sua intuição canceriana que quase nunca falha. 
E então, de súbito, o se descobrir só. O desemparo da insônia, o peito sufocado. 
Talvez você não saiba, querida menina, mas você é frágil. Sua mágoa é grande, a onda não leva. O mar cura apenas a aflição do corpo. 
A da alma não.
Deixa sangrar, vai.
Transforme em luz o que é escuridão. 

Dois últimos conselhos: viva por você e sorria. 
Um sorriso de verdade é capaz de transformar vidas e sonhos. 
E de te fazer renascer. 
Foi o que eu li nas linhas dos seus traços tão seus: 
A sua cura está dentro de você.

Despeço-me na certeza de voltar um dia. Para te lembrar o essencial. O que, de fato, te faz estar viva.

Cuide-se.

Delicada e ternamente,
   

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Densidade


A palavra é densa. Tem o peso do sentimento.
Coerência, verdade e cuidado: para quem diz o que se faz e age o que se prega.
Fiapos só chamam atenção quando presentes onde não deveriam.
Ficam ali pendurados, expostos, atraindo olhos pesados e pensamentos incertos.
A lua cheia vem ascender a inquietude intrínseca. O sono vem rápido - e se vai ainda mais fugaz.
A moça desperta da noite sem sonhos pensando no que é e no que apenas parece ser. Mas nem se ateia tanto. No fundo, sabe bem que deve frear a queda livre (será que dá?).
Ela escuta uma cantiga de acordar, toma um banho de alma - com cheiro de alecrim e textura de algodão - e vai ver o brilho do dia.
Entre mesquinharias e superficialidades, ela sempre se lembra do que realmente é valoroso: o carinho de quem se gosta, a reciprocidade do amor e o milagre da vida.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Respirar o amor



A sobrancelha esquerda se levanta inquisitiva questionando aquela velha dúvida.
O silêncio do quarto escuro cala a voz. 
Ela se concentra na sístole e diástole dos dois corações em sincronia. No calor da pele, no carinho na nuca, no suspiro velado.
Os pensamentos voam soltos, dissimulados, brincando de sonhar.
A alma tem sede de vinho, de prazer, de vida. 
Um anseio tímido de ser única grita baixinho no âmago do estar. 
A mesma profundidade, a soberana intensidade. 
A interferência dos astros guiando o caminho de luz.
-Seja menos detalhista, diz o reflexo dos olhos negros no espelho.
O sorriso ri seu riso aberto, por duas etapas de felicidade. 
A inquietude do peito já se transformou em paz. Para que hesitar?
É só se deixar sentir - livre. Aprender a nova solidão de ser só dois. 
Viver, crescer, aprender. 
Respirar o amor.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sejamos




Entre devaneios silenciosos e palavras compartilhadas, me vem a dúvida do ser ou não ser. Das possibilidades, cessões e congruências. 
A busca pelo tom certo. Voz, olhar e corpo.
Eu tenho apreço pelas entrelinhas. Deve ser a mania da clareza. Que se mostra quase ingênua de tanta luz.
Há de haver espaço para a escuridão também. Um pouquinho de breu. O apego pelo obscuro.
Um suspiro substituto da incompreensão. Nada de som, nem de expressão.
O sorriso disfarçando o pensamento.
Quem sabe o pouco se torne muito assim: pelo avesso. 
As novas batidas do coração querem anunciar o sentimento. Gritar pro mundo, fugir do peito acelerado. Não sabia que é preciso calma. 
Mas acabou por descobrir. 
Recitou um cordel, riu em segredo, tomou um outro gole e viu que está na hora de ser feliz. 
De viver a felicidade.
Sem questionar, sem duvidar, sem transformar.
Optou pelo ser. Sempre ser. 
Sermos. Para que sejamos.
Mais.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Janelas da alma


Os olhos eram de um castanho tão profundo que refletiam o que não cabia nas palavras. 
Às vezes tinham um brilho avermelhado, confessando sutilmente desejos e pecados febris.
N'outras, eram cinzas de um passado que se foi. Grandes, vazios, paralisados naquele tempo de luz. 
Tinham momentos de calmaria. Um marrom terno, doce, quente, confortável. Que aconchega e abriga olhares de terremoto.
Eles também sabiam sorrir. Diminuíam centímetros e se apertavam livres, em comunhão com os lábios.
Ou sorriam sozinhos. Em silêncio. Observando. Brincando de ser feliz. 
Eram os olhos de quem enxerga além do que se vê. 
Inteligentes, velozes, hábeis, antigos. 
Olhos feitos de mistério, magnéticos. Que prendem, sugam, despem, exploram e descobrem: corpo, mente, outros olhos, alma, coração.
Quando estão negros, como poços obscuros e perigosos, é bom deixá-los a sós. Longe, fitando um horizonte sem fim. Até que as lágrimas lavem o que não foi.
Todavia, quando estiverem como milhões de estrelas - faiscando, iluminando, transformando - olhos de paixão, preste toda a atenção. 
Esses são os olhos de quem recomeçou e está esticando a mão dizendo assim: 
-Me leva com você.



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Criado por: Ana Beatriz Miranda.
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